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04/02/13

Comunicação médico x paciente. Tem repercussão no tratamento?

Por Maciel Matias - mastologista e Coordenador do Centro Avançado de Oncologia na Liga Contra o Câncer

Este assunto não é devidamente valorizado na formação do médico. Sua importância é tamanha que costumo dizer que representa a metade do tratamento. Certo dia uma amiga perguntou-me:
- Como você informa ao paciente que ele esta com câncer?

Realmente não tem uma forma padrão. Todos esses anos como médico oncologista, nunca consegui uma maneira que pudesse ser repetida. Eu sempre conto para meus alunos uma história que me serve de referência.

O português Manoel criava um belo gato de estimação. Necessitando viajar à terrinha portuguesa, deixou o patrício Joaquim tomando conta do gato. Com poucos dias, Manoel recebe um telegrama do Joaquim.
Leu a correspondência e em seguida desmaiou. Estava escrito: Manoel, o seu gato morreu. Abraços, Joaquim.

Restabelecido da surpresa, providenciou o seu retorno ao Brasil. Ao chegar, procura o Joaquim, na tentativa de receber explicações para tão grande tragédia.
- Joaquim, seu imbecil, não se dá uma notícia dessas de uma só vez. Quase que você me mata.
- Ora, pois, pois, Manoel, como tu querias que eu dissesse? Ora, pois, mas se o gato morreu?!
- Deverias mandar-me a notícia em pedacinhos. Primeiro telegrama: o gato subiu no telhado. Segundo telegrama: o gato pulou do telhado. Terceiro telegrama: o gato morreu. É
assim que se informam as notícias ruins. Um pedacinho de cada vez.
- Agora aprendi.

O tempo passou e Manuel novamente teve que retornar a Portugal.
- Joaquim, meu amigo. Necessito de mais um favorzinho seu. Poderias ficar com minha mãezinha até eu retornar?
- Como não?! Será um grande prazer, patrício, ficar com a dona Maria.

Estando com seus múltiplos afazeres e cheio de problemas para resolver em Portugal, Manoel chega, já tarde da noite, ao hotel e o recepcionista informa que tem um telegrama do Brasil para ele. Preocupado e ansioso, Manoel lê o telegrama e cai desfalecido.
- O que houve Sr. Manoel? Pergunta o recepcionista retirando o telegrama das mãos geladas de Manoel e lê o conteúdo:
- Caro Manoel, sua querida mãezinha, dona Maria, subiu no telhado.

Realmente é sempre difícil dar uma notícia ruim para alguém. Quem dá a primeira informação não é muito bem visto. No passado, quando qualquer tipo de câncer era uma sentença de morte, os pacientes fugiam ou mudavam de calçada ao cruzarem com os médicos que haviam diagnosticado as suas doenças malignas. Apresentavam uma absurda reação, como se os médicos fossem os responsáveis pela origem de suas doenças.

Sempre digo que o outro lado do bureau, ou seja, o lado do paciente é muito complicado. Só sabemos quando passamos por essa experiência. A informação detalhada, muitas vezes repetidamente apresentada, é capaz de minimizar as dúvidas de pacientes e familiares. Dessa forma, as escolas médicas deveriam enfatizar e se preocupar com a comunicação entre médicos e pacientes. Algumas vezes nos deparamos com pessoas que saem dos consultórios cheios de dúvidas.
- Qual é a sua doença e qual o seu prognóstico?
- Não sei.
- Quais os remédios que o seu médico passou e para que servem?
- Também não sei.
- Pediu para você retornar e acompanhar o resultado do tratamento?
- Não fui informado.
Ou seja, aquele atendimento deixou mais dúvidas do que soluções.
Quer satisfazer seu paciente? Comunique- se!

Há um excelente trabalho desenvolvido no Hospital Mário Covas, da Faculdade de Medicina do ABC paulista, coordenado pelo Professor Doutor Auro Del Giglio e colaboradores. Afirmam que a satisfação do paciente é importante, não somente para avaliar a qualidade do cuidado médico, mas também para facilitar o tratamento da doença. A clareza da linguagem e a comunicação são fatores importantes na adesão do paciente ao tratamento. O seu treinamento deveria ter especial atenção dos educadores das Escolas Médicas.

A conhecida frase do grande apresentador da TV brasileira, o Velho Chacrinha, serve para todas as relações humanas: Quem não se comunica se trumbica!
 

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